A HBO parece ter conseguido de novo. Há mais ou menos uns 15 anos, o canal premium pôs no ar uma série com quatro mulheres nova-iorquinas indo atrás dos seus objetivos, fossem eles o príncipe encantado em versão modernizada, muito sexo, subir na carreira. Em suma, ser uma mulher realizada. Era “Sex and The City” e em suas seis temporadas o seriado ajudou a criar mitos sobre a mulher moderna, emancipada e que vai atrás do seu sonho e do sucesso, gerando ainda dois filmes – nada memoráveis, na verdade, passando raspando no ridiculo.
Talvez o mundo em crise econômica de hoje não suporte mais a ideia de ver quatro senhoras bem photoshopadas (nos cartazes e na vida real, por assim dizer) andando sobre camelos e sendo retratadas em resorts luxuosos ao redor do mundo, sofrendo por amor em frente ao oceano. Poderia se dizer que é quase uma afronta a tanta gente que tenta correr atrás dos seus sonhos dividindo apartamentos pequenos e feios, vivendo com grana bem curta e tendo que se equilibrar entre as necessidades basicas da vida e aqueles sonhos de realização pessoal que muitas vezes ficam pelo caminho.
Certamente, o mundo de hoje comporta melhor o universo de “Girls“, serie que a mesma HBO lançou nos EUA há dois meses sobre quatro jovens mulheres que vivem o oposto do glamour que exala do combo Manolo Blahik-Cosmopolitan-Magnolia Bakery. A serie criada por Lena Dunham (que escreve, dirige e protagoniza o programa, com as bençãos do atual midas da comédia Judd Apatow) mostra a ressaca dos anos de fartura e as suas vítimas preferenciais: jovens que ao tentar começar sua vida profissional e em seus relacionamentos, vivem todas as incertezas de um mundo que parece estar fechado para balanço, inoperante.
A primeira cena da serie é a da foto acima, com Hannah (Lena), uma garota de 24 anos que vive em NY sendo avisada durante o jantar pelos pais que eles não vão mais sustentá-la, já que ela é estagiaria e tem possibilidade de ser efetivada no emprego. Deppois disso, Lena é demitida e acaba tentando resolver como sobreviver sem dinheiro em Nova York. Isso depois de protagonizar uma das cenas de sexo menos eróticas da historia do canal – e talvez da TV. A grande ideia que ela acaba tendo envolve chá de ópio, os pais e ser “a voz de sua geração, ou talvez a voz de alguma geração”.
O que me ganhou na série logo no piloto é o quanto “Girls”é desconcertante. Num momento em que as series de TV parecem cada vez mais escapistas (para fazer o publico espairecer), o show de Lena Dunham pega o zeitgeist e joga um humor sutil e que flerta com o quão deprimente a vida de pessoas sem rumo, vivendo um limbo entre a adolescência emocional e as necessidades e cobranças do mundo adulto, pode se tornar. São losers bem no começo da sua estrada, na cidade que nunca pára e onde o sucesso é compromisso/obrigação. Ainda que essa situação gere momentos hilariantes, até por que a vida é assim. O humor de “Girls” não é a risada de claque de “2 Broke Girls”, serie de TV aberta que faz piada dos altos e baixos da economia americana com duas garotas passando perrengue. Aqui a risada vem da inadequação entre o discurso e a realidade, entre o que as personagens falam e o que elas acabam fazendo. Veja “Girls”, o anti-Sex and the City por definição.


Legal essa comparação com Sex and the City (que eu adoro!) e como em pouco tempo a visão das pessoas sobre a sociedade muda.
Por isso eu gosto muito de Louie (se não viu, fica a dica), série em cujo estilo a Lena Dunham com certeza se inspirou, mesmo tendo um humor bem mais deprimente. Os dois, aliás, Louis C. K. e Dunham, vivem trocando elogios no Twitter. hahaha
Já ouvi falar sobre Louie sim, vou procurar! Agora eu peguei a temporada toda de Girls, vou ver no feriadão!